Tabus relacionados às relações homoafetivas também atravessam os estudos sobre a pré-história humana. A partir de imagens de grupos humanos do passado remoto, registradas em pinturas rupestres na Serra da Capivara, uma pesquisa desafia narrativas tradicionais sobre gênero e sexualidade. É o que propõe a dissertação “Práxis queer: a arqueologia queer na análise interpretativa de arte rupestre”, de Luz Bispo Lima. O trabalho identifica, por meio da arte rupestre, vestígios de identidades e relações homoeróticas, contribuindo para a desconstrução de visões binárias sobre o passado.

Luz Bispo Lima é graduada em História pelo Centro Universitário Estácio de Santa Catarina e mestre em Arqueologia pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PPGArq) da Universidade Federal do Piauí. A defesa da dissertação ocorreu em março de 2025.
A pesquisadora relata que a ideia do estudo surgiu ainda durante sua formação em História, a partir de questionamentos sobre a historicidade de conceitos como gênero e sexualidade. “Sou historiadora de formação e, ao longo do curso, aprendemos que os conceitos são, em essência, categorias do seu próprio tempo. Ainda assim, sempre questionei essa ideia. Minha principal dúvida era: será que gênero e sexualidade não podem atravessar diferentes temporalidades? Se existimos como identidades de gênero e sexualidade em diversos contextos históricos, por que seria inadequado levantar essa hipótese na pré-história? Ao longo da pesquisa, percebi que meu questionamento não estava equivocado, apenas precisava ser melhor desenvolvido, o que busquei fazer na dissertação”, explica.
As hipóteses da pesquisadora sobre a visibilidade de gênero e sexualidade na arte rupestre dialogam com estudos anteriores que tentaram abordar o tema, mas que, segundo ela, muitas vezes desviaram do foco ou acabaram reproduzindo discursos excludentes. “Havia a possibilidade de observar gênero e sexualidade na pré-história, mas essas hipóteses nem sempre estavam alinhadas a uma abordagem consistente. Em muitos casos, acabavam reproduzindo discursos de violência, ainda que de forma indireta. As evidências eram visuais e interpretativas, mas faltava um direcionamento que permitisse compreendê-las sem silenciar vozes dissidentes, considerando gênero e sexualidade como conceitos que também se flexionam no tempo”, afirma.
Luz destaca ainda que o Piauí reúne um vasto potencial para estudos nessa área. Segundo ela, as evidências sempre estiveram presentes, mas nem sempre foram devidamente exploradas. “O Piauí possui, sem dúvida, um dos maiores acervos de arte rupestre com potencial de leitura queer já observados. Há registros que indicam possíveis relações entre falos e vulvas coexistindo com outras formas de identidade. Essas evidências não eram invisíveis, mas muitas vezes não eram reconhecidas por quem não buscava enxergá-las. As pinturas já eram conhecidas desde as pesquisas de Niède Guidon e foram, inclusive, descritas na arqueologia brasileira sob interpretações mais indefinidas. O diferencial da minha pesquisa não foi descobrir novas imagens, mas revisitar e reinterpretar aquelas que já existiam, mas haviam sido negligenciadas”, ressalta.
O Parque Nacional Serra da Capivara preserva vestígios arqueológicos da mais remota presença humana na América do Sul. Reconhecido por sua relevância, foi inscrito pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 13 de dezembro de 1991. Com cerca de 130 mil hectares, o parque está localizado no sudeste do Piauí, abrangendo municípios como São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias, a aproximadamente 530 km de Teresina. A área conta ainda com um cinturão de proteção ambiental que contribui para a preservação e integridade dos sítios arqueológicos.
Por fim, a pesquisadora ressalta a importância do apoio institucional recebido durante sua trajetória no PPGArq, especialmente de sua orientadora, a professora Ana Luísa Meneses Lage do Nascimento. “O apoio do colegiado do PPGArq foi fundamental, tanto para a conclusão do mestrado quanto para o amadurecimento das minhas reflexões. Desde docentes que acolheram meus questionamentos até minha orientadora, que me deu liberdade para investigar um tema complexo, esse suporte foi essencial para que o trabalho alcançasse o resultado apresentado”, conclui.
A vice-coordenadora do PPGArq e diretora do Museu de Arqueologia e Paleontologia, Profa. Ana Luisa Meneses, comenta que a pesquisa de Luz Lima traz uma abordagem inovadora e que escolheu orientá-la pela sua capacidade de integrar a teoria queer e epistemologias decoloniais. “O potencial da dissertação de Luz Bispo Lima está em desenvolver uma abordagem inovadora, que aplica a arqueologia queer à análise interpretativa de arte rupestre. A pesquisa destaca hipóteses sobre motivos da arte rupestre, propondo conceitos como 'antropomorfismo queer' e categorias como homofalofetivo e homovulvoafetivo, baseados em iconografia rupestre. Escolhi supervisioná-la por sua capacidade de integrar teoria queer e epistemologias decoloniais, ampliando a compreensão da arte rupestre além de narrativas binárias e heteronormativas. Isso se alinha à minha expertise em conservação de arte rupestre, permitindo uma releitura inclusiva do patrimônio piauiense”, comenta.
Ana Luisa, ressalta ainda que o esse estudo influência e incentiva a releitura da arte rupestre em combate a apagamentos coloniais. “Essa pesquisa influencia o campo ao propor um vocabulário teórico-metodológico transgressor, desestabilizando narrativas hegemônicas sobre o passado humano e promovendo perspectivas inclusivas. No Brasil, ela incentiva releituras de arte rupestre como evidência de diversidades ancestrais, combatendo apagamentos coloniais e fomentando arqueologia decolonial. Seu impacto se estende à formação de novas agendas queer na academia nacional”, destaca.
O trabalho propõe também conceitos inovadores para identificar evidências visuais e simbólicas de afetividades quer na pré-história brasileira. Um novo vocabulário teórico-metodológico para a arqueologia é proposto, baseado em perspectivas transgressoras, inclusivas e decoloniais, dentre esses conceitos citam-se categorias como antropomorfismo queer, que propõe uma leitura não binaristas das figuras humanas representadas, e as categorias homofálicoafetivo e homovulvoafetivo, que reconhecem, pela arte rupestre a existência de afetividades e relações homoeróticas na ancestralidade.
Acesse a dissertação completa aqui.
Ufpi