O tratamento do câncer de próstata ganhou duas novas opções no Brasil. Resolução publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) nesta quarta-feira (27) autorizou o uso do ultrassom focado de alta intensidade (HIFU) e da crioablação em pacientes com doença localizada e risco intermediário favorável.
As técnicas tratam apenas a região da próstata onde está o tumor, sem a necessidade de remover ou irradiar toda a glândula. A expectativa é reduzir efeitos colaterais como incontinência urinária e disfunção erétil em um grupo selecionado de pacientes.
A autorização vale para homens com câncer de próstata localizado em apenas uma área do órgão e não se aplica aos casos mais agressivos da doença. Segundo o CFM, os procedimentos poderão ser indicados principalmente para tumores de risco intermediário favorável, além de algumas situações específicas envolvendo pacientes já tratados com radioterapia ou com tumores de baixo risco.
Chamadas de terapias focais, as duas abordagens seguem uma tendência cada vez mais presente na oncologia: tratar apenas a área afetada pelo câncer, preservando o máximo possível dos tecidos saudáveis. A proposta é manter a eficácia do tratamento com menor impacto sobre a qualidade de vida dos pacientes.
Mudança acompanha evolução do tratamento Até recentemente, a maior parte dos homens diagnosticados com câncer de próstata recebia um dos dois tratamentos considerados padrão: a retirada completa da próstata ou a radioterapia em toda a glândula. Embora eficazes para controlar a doença, ambos podem deixar sequelas urinárias, sexuais e reprodutivas.
Nos últimos anos, porém, o avanço dos exames de imagem e o maior conhecimento sobre o comportamento dos tumores permitiram identificar com mais precisão quais pacientes realmente precisam de tratamentos agressivos e quais podem ser acompanhados ou tratados de forma mais localizada.
Segundo o urologista e líder do Centro de Referência em Tumores Urológicos do A.C.Camargo Cancer Center, Stenio Zequi, isso levou a uma mudança gradual na forma de encarar a doença.
Hoje, médicos reconhecem que o câncer de próstata reúne tumores com comportamentos muito diferentes. Alguns crescem lentamente e podem ser apenas monitorados por anos. Outros apresentam maior risco de progressão e exigem cirurgia ou radioterapia.
É entre esses dois extremos que estão os pacientes que podem se beneficiar das terapias focais. Nesses casos, a doença está restrita a uma região da próstata e apresenta potencial de cura elevado, o que abre espaço para tratamentos menos invasivos e com menor risco de comprometer a qualidade de vida.
Como funcionam os novos tratamentos As duas técnicas autorizadas pelo CFM têm o mesmo objetivo: destruir apenas a região onde está o tumor.
No HIFU, ondas de ultrassom de alta intensidade elevam a temperatura do tecido-alvo para cerca de 90°C, destruindo as células tumorais e preservando estruturas saudáveis ao redor. Já a crioablação utiliza o caminho oposto. Agulhas são posicionadas na próstata para congelar o tecido tumoral a temperaturas extremamente baixas, levando à morte das células. Em ambos os casos, o tratamento é guiado por exames de imagem e realizado com margem de segurança ao redor da lesão.
Em vez de remover toda a próstata ou irradiar toda a glândula, o médico trata apenas a área comprometida.
Menos sequelas é a principal promessa De acordo com Zequi, o grande atrativo das terapias focais está na possibilidade de reduzir complicações associadas aos tratamentos tradicionais.
"Mesmo com os avanços da cirurgia robótica e da radioterapia moderna, ainda existe risco de alterações urinárias e sexuais após o tratamento do câncer de próstata", afirma.
A retirada da próstata pode provocar incontinência urinária, dificuldade de ereção e ausência de ejaculação. Já a radioterapia também pode afetar a função sexual e, em alguns casos, é combinada com bloqueio hormonal, que reduz a libido. Ainda segundo o especialista, as terapias focais apresentam taxas significativamente menores de efeitos adversos urinários e sexuais, em torno de 5%, enquanto os tratamentos radicais podem alcançar índices muito mais elevados.
Além disso, o procedimento costuma ser menos invasivo. Zequi explica que é geralmente realizado com anestesia leve, dura pouco tempo e permite alta no mesmo dia.
Nem todo paciente poderá receber a terapia A nova resolução também deixa claro que o tratamento não deve ser visto como substituto universal da cirurgia ou da radioterapia.
Os procedimentos foram autorizados apenas para pacientes com câncer de próstata de risco intermediário favorável, com lesão única e localizada em apenas um lado da próstata.
A regra proíbe o uso em tumores de risco intermediário desfavorável, alto ou muito alto.
Também poderão ser considerados alguns casos específicos de pacientes previamente tratados com radioterapia e situações selecionadas de câncer de baixo risco, quando houver lesões extensas ou dificuldade de adesão à chamada vigilância ativa —estratégia em que o tumor é monitorado por exames periódicos sem tratamento imediato.
Zequi explica que o principal desafio está na seleção adequada dos pacientes.
"Quem tem doença de baixo risco geralmente não precisa desse tratamento. Quem tem doença de alto risco precisa de uma abordagem mais agressiva. O benefício está em um grupo muito específico de pacientes", afirma. Acompanhamento continua obrigatório Receber uma terapia focal não significa encerrar o acompanhamento médico.
A resolução determina que os pacientes realizem exames regulares de PSA —proteína produzida pela próstata usada para monitorar a doença— a cada três meses no primeiro ano, a cada seis meses nos dois anos seguintes e anualmente depois disso.
Também serão necessários exames de imagem e nova biópsia entre seis e doze meses após o procedimento para confirmar a eficácia do tratamento.
O g1 acionou o Ministério da Saúde para entender se o tratamento pode chegar ao Sistema Único de Saúde. A reportagem será atualizada quando houver resposta.