O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou nesta quarta-feira (22) contra a ilusão de que é possível superar a pandemia de covid-19 ao administrar doses de reforço. "Nenhum país poderá superar a pandemia com vacinações de reforço e estas não representam um sinal verde para celebrar como havíamos previsto", afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus em entrevista coletiva em Genebra, poucos dias antes do Natal.
"Esses programas de reforço indiscriminados inclusive poderiam prolongar a pandemia em vez de acabar com ela, ao desviar as doses disponíveis para países com altas taxas de vacinação, fornecendo ao vírus mais possibilidades de se propagar e sofrer mutações", afirmou o doutor Tedros. "É importante lembrar que a grande maioria das hospitalizações e mortes é de pessoas não vacinadas, as quais não receberam uma dose de reforço", insistiu, acrescentando: "e devemos ter muito claro" que "as vacinas (atuais) são eficazes tanto contra a variante delta como contra a ômicron". De acordo com o comitê de especialistas em políticas de imunização da OMS (SAGE), ao menos 126 países já deram instruções para injetar uma dose de reforço e 120 deles já começaram as campanhas neste sentido. São, em sua maioria, países ricos ou de média renda, mas "nenhum país pobre desenvolveu ainda um programa de reforço", afirmou o SAGE em um comunicado nesta quarta-feira.
"Os esforços de imunização devem continuar se concentrando na redução das mortes e dos casos mais graves e na proteção do sistema sanitário", destacou o SAGE em suas conclusões.
"As medidas de saúde pública e sociais continuam sendo um componente essencial na estratégia de prevenção da covid-19, em particular no que diz respeito à variante ômicron", insistem estes especialistas.
Durante a coletiva, a doutora Maria Van Kerkhove, encarregada da gestão da pandemia na OMS, pediu prudência e insistiu na responsabilidade pessoal para evitar que o vírus continue circulando, embora tenha admitido que é difícil.
Estudos da Plataforma Científica Pasteur-USP (SPPU) mostraram que 8% dos pacientes com sintomas de forma leve da Covid-19 e saudáveis podem ter episódios de positividade prolongada,quando o coronavírus continua sendo detectado no organismo, mesmo com o fim dos sintomas. Porém, mais estudos ainda são necessários para avaliar a capacidade de transmissão do vírus em casos de infecção prolongada.
Segundo Marielton dos Passos Cunha, pós-doutorando na SPPU e também primeiro autor do artigo,mostram que os resultados levantam uma discussão sobre a necessidade da realizar testes após os 14 dias de afastamento do indivíduo infectado, para confirmar se o vírus foi de fato eliminado.
Até então, outros estudos sobre positividade prolongada mostravam pacientes com quadros de imunossupressão, associada a alguma doença ou a um transplante, o que explica a dificuldade no controle da infecção. “Já a nossa pesquisa trata de pacientes saudáveis, com defesa natural contra o vírus. Alguns fatores do hospedeiro podem estar ligados a essa positividade prolongada, como estado nutricional, condição imunológica e idade”, afirma o cientista.
O estudo faz parte do monitoramento do SARS-CoV-2 na região metropolitana de São Paulo, onde amostras foram coletadas no período de março a novembro de 2020.Pacientes selecionados positivos com sintomas leves para participar do estudo. “Nós coletamos amostras desses pacientes a cada semana para testagem. Três pacientes foram classificados como atípicos, pois se mantiveram positivos por mais tempo”, explica Cunha. Um dos pacientes é portador de HIV e testou positivo por 232 dias; já os outros dois testaram positivo durante 71 e 81 dias. No entanto, os indivíduos estiveram assintomáticos na maior parte do tempo.
Devido a alta durabilidade da infecção, os cientistas conseguiram caracterizar toda a sua duração, no momento da última coleta, os pacientes testaram negativo. “Isso significa que o próprio sistema imune, apesar de ter alguma dificuldade inicial, conseguiu eliminar o vírus.”aponta Cunha
Agora é necessário entender qual será o impacto epidemiológico desse fenômeno e se os vírus que continua no organismo têm a capacidade ou não de estabelecer uma nova infecção em outro hospedeiro.
Fabricante de vacinas contra Covid-19, a Moderna não prevê nenhum problema para desenvolver uma vacina de reforço para proteger as pessoas da variante Ômicron do coronavírus e poderia iniciar o trabalho em algumas semanas, disse seu executivo-chefe, Stéphane Bancel, em uma entrevista.
A Moderna espera iniciar no começo do ano que vem os testes clínicos de uma vacina para proteger contra a nova variante de disseminação rápida, mas agora está se concentrando em uma vacina de reforço de seu imunizante existente, mRNA-1273.
"Ela só precisa de pequenos ajustes para a Ômicron. Não prevejo nenhum problema", disse Bancel na entrevista ao jornal suíço TagesAnzeiger publicada nesta terça-feira (21). A empresa está aguardando informações importante sobre a variante para iniciar o desenvolvimento.
"Isto levará mais uma semana ou duas", acrescentou Bancel.
"Levará alguns meses para podermos produzir 500 milhões de doses após a aprovação (regulatória). Mas nossos recursos são muito maiores agora do que um ano atrás."
Se agências reguladoras, como a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e a suíça Swissmedic, exigirem estudos adicionais, isto aumentaria o prazo em ao menos três meses.
"Algumas autoridades querem um estudo, outras ainda estão indecisas. Na minha opinião, depende muito do quão gravemente a doença progride."
Após atrasos de entregas e lacunas de produção no começo de 2021, a Moderna agora consegue cumprir as metas de produção e entregar as encomendas no prazo.
Em meio a uma nova onda de Covid-19 provocada pela variante Ômicron nos Estados Unidos, o principal assessor do presidente Joe Biden para a pandemia, Anthony Fauci, fez um alerta recente: nem todos os testes diagnósticos disponíveis são capazes de detectar a doença quando o paciente está infectado pela nova cepa.
"Estamos obtendo informações preliminares de que nem todos os testes diagnósticos serão precisos com a Ômicron", afirmou o imunologista em um evento virtual na semana passada.
Os testes aos quais Fauci se referia eram os de antígeno. Segundo ele, o RT-PCR continua sendo o "padrão ouro" para identificar a presença do vírus, inclusive da variante Ômicron.
A preocupação dos especialistas americanos é que um indivíduo que faz um teste de antígeno e obtém resultado negativo pode ficar confiante de que tem apenas um resfriado e não fazer o isolamento adequado, contribuindo para o aumento de casos.
Esta é possivelmente a variante mais contagiosa de todas as que já foram identificadas desde que o vírus surgiu, no fim de 2019, em Wuhan, na China.
Na segunda-feira (20), o governo dos Estados Unidos anunciou que a Ômicron já se tornou dominante entre os infectados no país.
No mesmo dia, o país registrou a primeira morte pela variante. A vítima é um homem não vacinado na faixa dos 50 anos.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que o mundo ja vive uma quarta onda provocada pela Ômicron, menos de um mês após a divulgação da descoberta da cepa.
Tipos de teste
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Cabe ressaltar que os órgãos reguladores dos Estados Unidos ainda não divulgaram quais marcas de testes não estão detectando a Ômicron.
Fauci se referiu a alguns testes de antígeno, que são os chamados testes rápidos, muitos deles realizados em farmácias aqui no Brasil — mas que nos EUA e em outros países podem até ser feitos em casa.
É utilizado um swab nasal, mas não existe a necessidade de envio do material coletado para um laboratório. O próprio kit tem a reação que vai mostrar se há ou não infecção pelo Sars-CoV-2.
Especialistas ouvidos pelo R7 em julho já ressaltavam a importância desse tipo de teste ser realizado em um ambiente controlado.
"Os exames feitos em condição precária muitas vezes têm possibilidade de erro na coleta. Então, perde-se por essa falta de treinamento, de supervisão, que os laboratórios têm", sublinhou o infectologista Hélio Bacha, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Esse tipo de exame já tem uma perda de sensibilidade justamente pela rapidez, complementou a coordenadora médica de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Fleury, Maria Carolina Tostes Pintão.
"Quando [o teste] ganha velocidade, perde em alguma coisa. No caso, perde sensibilidade. Como no teste de antígeno não tem amplificação do material, ele tem menor sensibilidade se você tiver uma quantidade de vírus menor. Pode ter resultado negativo em uma pessoa que tem a infecção. E vai ser sempre assim para todos os exames."
Os exames de antígeno, por serem menos precisos, devem ser realizados até, no máximo, o quinto dia desde o início dos sintomas.
O teste considerado "padrão ouro" continua sendo o RT-PCR, que é feito também com coleta de secreção da nasofaringe e da orofaringe, mas com a amostra enviada para análise laboratorial, podendo levar mais tempo até sair o resultado.
O RT-PCR é oferecido nas redes pública e privada, inclusive com cobertura obrigatória dos planos de saúde.
É importante saber que ao realizar um exame de Covid-19 o resultado indicará apenas se o paciente está ou não infectado pelo vírus Sars-CoV-2.
Nem mesmo o RT-PCR é capaz de identificar a variante. O exame adicional é feito por meio do sequenciamento genético e tem pouca ou nenhuma importância para quem está doente, afirmam especialistas.
A análise genômica das amostras deve ser feita por órgãos públicos ou entidades privadas para fins epidemiológicos.
A prevenção e o tratamento da Covid-19 são os mesmos, independentemente de qual seja a variante.